quinta-feira, 24 de novembro de 2011

.medida por gramas

no meu suor, no meu suspiro, ouço essas ondas dos seus sussurros que a distância vai esfumaçando acima do mar. sinto que você se transforma em qualquer coisa assim da natureza e vai se tornando meu próprio ar, meu calor, meu desejo de comer chocolate, minha dor de cabeça, meu sono, minha agonia de não poder tocar; embora sinta o tempo todo. na dureza das pedras, na leveza do balanço das folhas das árvores na estrada. você vai se formando nessa terceira pessoa integrada entre nós se fazendo doentiamente presente nas minhas pálpebras, na lubrificação do meu piscar de olhos, no peso do meu corpo. no inferno, absoluto e mais real em mim. e eu quero abraçar toda essa força estonteante e inconcreta como poesia marcada a tatuagem no meu coração e repetir a cada instante essa sensação reconfortante no meu peito. essa abdução do vazio que pairava em mim e já nem me lembro mais. é sempre você, sabe? em tudo, persistentemente, acalentando e atormentando assim.

sábado, 1 de outubro de 2011

.this time around i'll constantly change.

ser em duas. distribuir em medidas equilibradas doses perigosas de cabeça e tormentas de coração. sucumbir aos caminhos enganosos da razão sequestradora de inquietações. ser em duas. compreensão e delírios. o desejo de um mar se abrindo palpitante no meio do peito e só ter conhecimento para enxergar o vazio. ser em duas. eco e infinito. nada e possibilidade. ferida e orgasmo. pulsação e clitóris. tranquilidade e emoção. ser em duas, saltar da vida rumo a qualquer coisa, contemplar a introspecção definitiva. ser em duas. um grito, um trago de vinho barato papel e caneta demônios expulsos. fechar os olhos esperando o chão do salto mais querido, espalhar os objetos do quarto aleatoriamente em gargalhadas. passiva, agressiva. um abraço eterno, análise subjetiva do objeto. ser em duas. encontrar as pontas de existências ambíguas que se fecham amedrontadas na percepção do risco, e o desejo de abrir-se maravilhada no íntimo de uma melodia atraente, melancólica, intensa, às vezes colorida, outrora cinza; mas inevitavelmente real. ser em duas. as metades são partes de ambas, duas que se trancam e dividem. ser em duas, se antes pavor, agora alívio. ser em duas. sentir, qualquer coisa. qualquer coisa que não seja me sentir mal por não sentir nada.

domingo, 11 de setembro de 2011

.na pele, no sangue, no suor, nos poros, no coração. em tudo.

alfinetes de músicas costurando meu radinho,
pequenos trechos.
blues e vinho.
samba de raiz e caipiroska.
rock e whisky.

desejo desesperado de
sentir.

explodir o sufocamento
da emoção
abafada.
os dedos se entrelaçando,
brigando,
disputando.

unhas corroídas,
incontáveis ressacas.

preciso desesperadamente sentir.
sair desse completo
desligamento
da vida.
cavar os passos, 
cair,
implodir, 
colidir,
fazer os verbos.
todos.

sentir a pele queimando
e o suor se multiplicando
e o cheiro seduzindo
e o coração pulando
e as veias saltando dos poros
e as vísceras borbulhando.

suprimir a superficialidade,
a mediocridade em que tenho vivido.

estou seca.
seca de amor paixão tesão êxtase dor melancolia inspiração.
seca de ódio revolta angústia congestionamento da alma.
seca de mim.

me fala, maísa.
em que livro
ou canção
ou esquina da vida
procurar por mim.

necessito,
pois,
quando nem doer a vida já não faz
e nem sei se reconheço mais
a garota que fui de alma intensa.
e inteira.

e sentir, sentir e sentir.
preciso.

domingo, 4 de setembro de 2011

.I'll never understand why my life has so much pain.

me explica, big mama. me explica o sentido desse silêncio macio em que o universo inteiro se delicia com a inexistência e é quando melhor sinto e percebo os desígnios de ser, estar, querer, continuar. me explica com esse som rouco sujo inspirador com cheiro de whisky barato da sua voz. me explica as mazelas, me explica porque a sensação de tristeza desconhecendo o destino, a angústia delicada da noite sem explicação racional. a razão, esse meu demônio, esse meu terrorismo que odeio e desenvolvi um senso automático para fazê-la começar. me explica a aflição, o coração partido, quebrado, em silêncio, negando a dor e se protegendo de novos possíveis hospedeiros. me explica, big mama, me explica essa paz amarga que só consigo quando fantasio uma vitrola, sua voz saindo de um vinil em um quarto escuro e desesperado. me explica o que se faz quando algo que incomoda, que não se quer e que faz mal está na sua vida e não é uma escolha sua. o que é impossível eliminar, ignorar e está à sua porta batendo apressadamente e te inquietando com a insatisfação. me explica o corpo fora de lugar, a alma perdida, a imagem desfocada, a roupa inadequada, as palavras falsas, a vida não-conquistada. me explica o desejo louco de mudança, a vontade insana de ser livre, o chá capaz de queimar o sabor da língua. me explica o amor tão grande que quer explodir, voar, mergulhar, se teletransportar. o amor se constituindo, se construindo, se dividindo, se fazendo, se amando em si. me explica o medo, apesar da crença fanática no empirismo. me explica, big mama, canta pra mim a noite toda, todas as madrugadas e o resto da vida, e tenta, mas tenta com muito afinco mesmo, tenta me explicar. porque preciso tanto te ouvir pra ser menos medíocre. porque preciso desse coração arrepiado com sensações confusas me excitando no meio de um hiato de histórias mesquinhas. enchendo meu copo de tesão e eternidade. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

.ensaio sobre o que me dividiu

construí essa imagem necessária porque queria fugir. não aguentava mais aquela última casa daquela última rua daquele último bairro daquele interior. não aguentava mais os fundos, a edícula, a solidão superficial. não aguentava mais aquele escritório branco demais, com campainha de telefone demais, gente escrota demais, planilha demais, recibos e notas fiscais e burocracia do caralho demais. não tenho certeza, mas acho que queria fugir. 

abri os braços.
me joguei.
sem mergulho,
bati com a cara na brita cinza e equivocada
da calçada.

simplesmente decidi que vou embora e fui. e me apaixonei. ah, a paixão insana da ilusão egoísta de buscar por si mesma nos outros. e aí criei esse personagem. inteligente, sensível, interessante, culto, independente, com experiências de vida incríveis. enfim, alguém que me entenderia. enfim, alguém que seria eu.

e nem vi você chegar. 
e nem vi você ir embora.
e você foi, personagem. 
você foi um personagem.

dia-a-dia me mostrando 
-eu sou só um personagem que você criou.
vagarosamente acontecendo 
-eu sou só você se buscando em mim.
me convencendo de que eu nunca, nunca quis você 
-perceba, você está morrendo em mim porque você nunca existiu em mim.
espetando agulhas que viraram facas cotidianamente 
-vai embora, sai daqui, você não me quer, eu não sou o que você quer. nunca serei. nunca fui. não sou. você não entende? 

eu nem vi. mas entendi.

fiz pelo personagem tudo que faria por mim. inclusive, amar. 
amar demais, enlouquecer, desacontecer.

se autenticidade é ficar cada vez mais parecida com o que desejo ser, por que é tão difícil?

quando acordei já não existia mais. a ilusão havia acabado, o personagem se retirou de cena e eu magoada, ressentida por ter me perdido. existem monstros que não percebi que estavam nascendo e nem que estava os alimentando, existem personagens esquisitos, auto-destrutivos, intempestivos, solitários. existe tudo isso que me confunde e se confunde e parece ter desejos próprios. e existe eu e essa intensa vontade de ser livre. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

.sensibilidade

amy, sinto sua falta. aquela falta surreal de "queria que você estivesse no mundo respirando e pensando e vivendo o melhor e o pior da vida em algum lugar". sinto falta de gente no mundo. sinto falta de coisas reais. de bichos que adormecem embebedados ou com vodka ou com o excesso de viver e que se adoecem dos mesmos. sinto falta do grito de sou-quem-eu-sou-não-importa-como. sinto falta da expectativa de que muitos discos viriam e que você melhoraria e que você sofreria menos e que você encontraria o que tanto amargou em vida por não ter. nunca. sinto falta porque o mundo continua o mesmo. mórbidamente se julgando vivo matando pessoas com suas mesquinharias. o mundo continua bradando, apontando, engravatado e cuspindo em cima de quem é. o mundo continua pisoteando os deprimidos do universo. mas, sabe, o mundo sorri. o mundo finge que não é com ele e finge que tem a solução e finge que a complexidade humana se restringe a apontar as opções. como se tivéssemos escolha. amy, sinto falta de gente no mundo dessas que tatuam tudo fazem jazz fumam um cigarro bebem na calçada de um pub escrevem sobre a própria reabilitação usa o cabelo mais copiado dos últimos tempos e puxa o lápis de olho em plena luz do dia. eles usavam seu cabelo, compravam seus discos, imitavam seu lápis de olho à noite - quando é permitido ser alguma coisa nessa vida-noturnando, eles dançam seu não à reabilitação. juram que sabem da sua dor. juram que acham que era só um drink que você tomou pra se divertir. amy, sinto falta. falta de saber que você não é tão boa. sinto falta de não saber de nada, de acreditar que não preciso saber, de me identificar, de me emocionar, de chorar contigo, de dançar contigo, de vibrar contigo, de torcer por ti. sinto falta desta dualidade da vida, em que as pessoas vivem e amam e se apaixonam e se odeiam e sentem... raiva. sinto falta da verdade. e você se foi, amyzinha. se foi e o mundo ficou mais falso, mais assombrado, mais hipócrita, mais happy 'vamos rir oba estamos desesperados'. amy, te fizeram mal, nunca te entenderam, agora te crucificam; mas sei que agora, pouco importa. sabe o divino? o mundo não é maior que a arte. podem tudo, mas não podem apagar a história de uma artista. sua voz, amyzinha, ninguém, nunca, vai calar. dos radinhos de pilha às pistas mais badaladas, você vai responder com sua canção que você esteve, está e sempre estará lá: na história da música, da dor, da solidão e da beleza da complexidade humana. enjoy the hell, baby.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

.while i'm still young

deve ser bobagem tudo isso que eu sinto. e que você sente. meu eu. meu ego. minha alma. minha sujeira. meu outro. minhas pessoas. todos vocês. deve ser bobagem os motivos pelos quais a gente chora, e a gente bebe mais do que devia, e a gente se sente menor do que é ou fica menor do que se sente. não sei.

porque o que importa mesmo, mesmo, é a urgência do mundo. os negócios, os trabalhos, a hipocrisia, os sorrisos, o segundo a mais no banho, o tempo a mais conversando com quem pouco daria pra ver um sorriso seu. o que importa mesmo é se fazer valer no mundo. ser parte de algo. não é mesmo? o que importa mesmo é não saber dizer não para aqueles que você deve fingir o tempo todo, mas saber vacilar e magoar aqueles que te cobrem com um cobertor imaginário em noites frias e aqueles que perdem o sono, que se casam com a insônia por te amar tanto e não saber de você. o que importa mesmo é que não deu, não tinha como, não era possível. pouco interessa se a dúvida é o homicídio de alguém. exageros, não? sempre fui exagerada assim, perturbada assim, intensiva assim. e me perco nesta lógica imbecil e desprezível que o mundo impõe. quero que o mundo e suas convenções se fodam. estou cansada de acordar neste mesmo destino das coisas que são como elas são. que tudo e todos não passam de um grande saco de merda, não é novidade alguma. mas parecem querer ser porcelana. 

já não sei mais se estou errada em duvidar de tudo, em tentar suprimir qualquer tipo de emoção e desejo, se negar a vida, o processo mais emocionante de viver, é realmente um erro, um equívoco. não escolhi isso. não foi premeditado. não tento forçar uma falta de sentimentos, uma descrença generalizada. ela simplesmente se instalou por aqui. excesso de decepção, excesso de depressão, excesso de fobias. mas que motivo eu tenho pra acreditar que preciso achar um meio de mudar isso se ao menor sinal de entrega às emoções propostas, tudo se transforma em mais decepção, mais expressões patéticas da desordem do mundo que eu sinceramente odeio? como me libertar deste mundo enclausurado que eu mesma me coloquei como escudo, proteção, se ao sair dele vejo este universo sujo, cheio de vômitos e entulhos disfarçados? caí muitas vezes, foi difícil levantar, retomar o caminho ainda é pra mim um desafio de ações desconhecidas. e é por ter caído e saber como meu pulso, minha pele, meu coração, minha alma e tudo, tudo que eu sou, é por saber como estas coisas se maltratam, são auto-destrutivas e se entregam ao pior de tudo, é por tudo isso que questiono se devo sair da prisão. ao menos aqui, as coisas fazem mais sentido pra mim.