quinta-feira, 2 de junho de 2011

.keep your distance

maísa, você sumiu. sei que tentei te sufocar, te assassinar, te matar envenenada quando não aguentava o peso que derrubava em mim. sei que nunca suportei sua maquiagem ofensiva, e a maneira que me obrigava a enxergar o espelho. sei que te mandava ir embora quando você surgia e bagunçava toda a minha vida. 

o avesso. os livros jogados. os desenhos assustadores que você pintou nas páginas marcadas dos meus livros prediletos. nunca vou entender meu amor, meu ódio. você me observava, ao menos. eu via a sua sombra, seu vulto, passando cabisbaixa na porta do quarto, sem nunca entrar. eu estava bem sem você. acreditava, do fundo da minha alma, que era você que me trazia todo lixo armazenado e transbordante que me tornava cada vez que você estava aqui. sua escuridão, seu desprendimento e sua repugnância me assustavam. mudava meu cabelo, meu quarto, minhas coisas. expunha tudo que eu não queria ver. agora, tola que sou, entendo. preciso dos excessos e da margem. da sua margem. daqueles discos melancólicos que você escolhia pra ouvirmos, os livros que arrancavam quase tudo de mim e me deixava vazia e insana. 

preciso da sua desfiguração. da sua tristeza. da sua raiva. do seu ódio. da sua paixão. da sua vontade. do seu tesão. do seu universo incrível e cheio de extremos. 

eu sei, maísa, que você é tudo que eu não posso. que você é tudo que vai me levar pro lado da vida que eu não quero de verdade. que não dá pra ser você e ser aceita. que um espaço com maísa não vai arrumar a minha vida. eu sei que você só vai me trancar mais ainda dentro de mim e vai viver suas merdas. sua extravagância. sua vulgaridade. vai me tirar do mundo, e me levar ao teu mundo. vai trocar de novo meus livros, minhas bebidas, minhas fotos, meus desenhos, meus filmes, minhas músicas. vai escrever frases insuportáveis no espelho, na parede, na cabeceira. vai dormir no tapete, sair na chuva, contemplar a madrugada, vangloriar o silêncio. você vai voltar a foder toda a minha vida como sempre fez. e eu grito com você, te expulso, você ri da minha cara, me chama de patética, dá as costas e vai embora. até eu implorar pra que você volte novamente e me traga toda essa tragédia. 

sei de tudo isso mais do que gostaria de saber. gostaria. mesmo. de ter a ingenuidade que você enxerga. 

não, não volte. não ainda. não volte. não agora. não por enquanto.

guarde a saudade que estou sentindo e quando for insuportável ficar sem você. quando te chamar impacientemente, traga. traga caos pra essa normalidade que eu já não aguento mais.