primeiro ato:
- ela sorria. não, não sorria. ela gargalhava. os ruídos mais exaustivamente efusivos de uma felicidade que ninguém ousava questionar. claro que não. a expressão em seu rosto, as rugas separando as maçãs do rosto e um contentamento estampado nos olhos não podia ser nada alám de felicidade. ela gargalhava em compulsão rodando na ciranda. era como se a vida, a futura, a que ainda não houvera, era como se a possibilidade a empurrasse. e a possibilidade era uma jovem cheia de vida proporcionando instantes de êxtase. e ali no chão, no meio da grama que girava, naquele verde em tons de tantos outros, ela via como em uma tela de cinema, toda a sua vida passada. e nada fazia com que uma gota de tristeza denunciasse em seu rosto. ela via os piores momentos, os piores sofrimentos, se via desesperada soluçando em uma calçada e com muito medo do segundo seguinte; mas continuava a gargalhar enquanto assistia. parecia acreditar firmemente em um distanciamento entre a vida que assistia e a que vivia em cima de uma ciranda girando violentamente a decretando sua vida vivida diante dos seus olhos como espectadora. talvez não fosse distanciamento. talvez fosse nada. talvez fosse simplesmente entendimento, ou estupidez, ou alienação, ou conformismo, ou aceitação, ou nada que pudesse ser interpretado. acontece que eu, daqui, com meus olhos fechados e bêbada num sono confuso, também assistia a este filme. e era docemente agradável sentí-la tão livre e à vontade com seu passado, mas também assustador que este sentimento não correspondesse ao meu sentimento. minha angústia. aos meus anseios. aos meus medos. e minha frustração em ainda mergulhar no abismo do sofrimento que ainda é me penalizar por este passado rabiscado que ela via e gargalhava, quase que desprezando aquela vida vivida. de certo modo, ambas queríamos a mesma coisa: desprezar a vida vivida. a invejo porque mesmo sendo um tipo de eu em outra realidade inexplicável e desajustada, ela conseguia. e eu não.
segundo ato:
- ela passava uma temporada em uma fazenda tão digna de paz. uma fazenda de todo mundo, de tantas pessoas, de tantos amados e tantos identificáveis e de tantos abismos e retratos do que ela própria era. via pessoas de todos os tipos, de todos os sabores, os lugares, os sotaques. pessoas do passado, pessoas inexistentes, pessoas criadas pelo seu próprio subconsciente, todos os seus alter-egos, pessoas que perdeu, pessoas que gostaria de ter conhecido, aquelas paixões que teve alguma vezes na vida quando encontrava pessoas ofensivamente lindas - mesmo que não o padrão de beleza vigente - e se apaixonava e criava em sua memória uma personalidade pr'aquela pessoa que sequer ouviu a voz e não queria de jeito algum trocar pequenas palavras porque precisava manter aquele mistério e paixão devastadora que criou sozinha. encontrou todas estas pessoas. algumas passavam por ela e só olhavam, outras sentavam e falavam sobre a vida, outras morriam... e ficava muito nítido pra ela o que as pessoas, cada uma delas, carregava no olhar. quase sempre via dor, sofrimento, tranquilidade, alento, sensibilidade. quase sempre via aquilo que era e que procurava nos outros. e então se deu conta de que atraiu a vida toda pequenos espaços de si mesma. de um si que não era, mas que desejava ser. de um si que era e não desejava. de um si que era e que admirava e se orgulhava. e era isso que encontrava de divino nos outros. ela sendo com uma máscara desconhecida, porque o mistério sempre foi fundamental. e esta ela era mais parecida comigo. ela não me assustava. e ela chorava, ela estava infeliz, estava triste e depressiva. e queria muito conversar com uma pessoa específica que procurava e não conseguia encontrar e não me deixava saber quem era. perturbada por aquela eterna insatisfação, conseguiu enxergar sentado numa varanda, num banquinho de madeira em uma noite enluarada, um velho, negro, simbolicamente representado pela figura de um ator, dedilhando um blues e logo puxando uma canção admirada, cuja introdução sempre a fez chorar. e a mim também. e ela falava sobre sua tristeza. e as pessoas da fazenda se despediam, iam embora, e ela parecia querer ficar ali pra sempre. e ficou cantando ao lado do velho, com as pernas entrelaçadas e uma almofada no colo, de cabelo solto, sentindo as delicadezas de uma lua que ela ousava chamar de paraíso. e aquilo foi eterno. e aquilo existiu. e aquilo se chocou com o ato anterior e eu me identificava com ela e nós duas invejávamos aquela que gargalhava de tudo isso.
desfecho:
não nos entendemos.