amy, sinto sua falta. aquela falta surreal de "queria que você estivesse no mundo respirando e pensando e vivendo o melhor e o pior da vida em algum lugar". sinto falta de gente no mundo. sinto falta de coisas reais. de bichos que adormecem embebedados ou com vodka ou com o excesso de viver e que se adoecem dos mesmos. sinto falta do grito de sou-quem-eu-sou-não-importa-como. sinto falta da expectativa de que muitos discos viriam e que você melhoraria e que você sofreria menos e que você encontraria o que tanto amargou em vida por não ter. nunca. sinto falta porque o mundo continua o mesmo. mórbidamente se julgando vivo matando pessoas com suas mesquinharias. o mundo continua bradando, apontando, engravatado e cuspindo em cima de quem é. o mundo continua pisoteando os deprimidos do universo. mas, sabe, o mundo sorri. o mundo finge que não é com ele e finge que tem a solução e finge que a complexidade humana se restringe a apontar as opções. como se tivéssemos escolha. amy, sinto falta de gente no mundo dessas que tatuam tudo fazem jazz fumam um cigarro bebem na calçada de um pub escrevem sobre a própria reabilitação usa o cabelo mais copiado dos últimos tempos e puxa o lápis de olho em plena luz do dia. eles usavam seu cabelo, compravam seus discos, imitavam seu lápis de olho à noite - quando é permitido ser alguma coisa nessa vida-noturnando, eles dançam seu não à reabilitação. juram que sabem da sua dor. juram que acham que era só um drink que você tomou pra se divertir. amy, sinto falta. falta de saber que você não é tão boa. sinto falta de não saber de nada, de acreditar que não preciso saber, de me identificar, de me emocionar, de chorar contigo, de dançar contigo, de vibrar contigo, de torcer por ti. sinto falta desta dualidade da vida, em que as pessoas vivem e amam e se apaixonam e se odeiam e sentem... raiva. sinto falta da verdade. e você se foi, amyzinha. se foi e o mundo ficou mais falso, mais assombrado, mais hipócrita, mais happy 'vamos rir oba estamos desesperados'. amy, te fizeram mal, nunca te entenderam, agora te crucificam; mas sei que agora, pouco importa. sabe o divino? o mundo não é maior que a arte. podem tudo, mas não podem apagar a história de uma artista. sua voz, amyzinha, ninguém, nunca, vai calar. dos radinhos de pilha às pistas mais badaladas, você vai responder com sua canção que você esteve, está e sempre estará lá: na história da música, da dor, da solidão e da beleza da complexidade humana. enjoy the hell, baby.