me explica, big mama. me explica o sentido desse silêncio macio em que o universo inteiro se delicia com a inexistência e é quando melhor sinto e percebo os desígnios de ser, estar, querer, continuar. me explica com esse som rouco sujo inspirador com cheiro de whisky barato da sua voz. me explica as mazelas, me explica porque a sensação de tristeza desconhecendo o destino, a angústia delicada da noite sem explicação racional. a razão, esse meu demônio, esse meu terrorismo que odeio e desenvolvi um senso automático para fazê-la começar. me explica a aflição, o coração partido, quebrado, em silêncio, negando a dor e se protegendo de novos possíveis hospedeiros. me explica, big mama, me explica essa paz amarga que só consigo quando fantasio uma vitrola, sua voz saindo de um vinil em um quarto escuro e desesperado. me explica o que se faz quando algo que incomoda, que não se quer e que faz mal está na sua vida e não é uma escolha sua. o que é impossível eliminar, ignorar e está à sua porta batendo apressadamente e te inquietando com a insatisfação. me explica o corpo fora de lugar, a alma perdida, a imagem desfocada, a roupa inadequada, as palavras falsas, a vida não-conquistada. me explica o desejo louco de mudança, a vontade insana de ser livre, o chá capaz de queimar o sabor da língua. me explica o amor tão grande que quer explodir, voar, mergulhar, se teletransportar. o amor se constituindo, se construindo, se dividindo, se fazendo, se amando em si. me explica o medo, apesar da crença fanática no empirismo. me explica, big mama, canta pra mim a noite toda, todas as madrugadas e o resto da vida, e tenta, mas tenta com muito afinco mesmo, tenta me explicar. porque preciso tanto te ouvir pra ser menos medíocre. porque preciso desse coração arrepiado com sensações confusas me excitando no meio de um hiato de histórias mesquinhas. enchendo meu copo de tesão e eternidade.